fim da quaresma – cru
crianças palestinas brincam de socorristas meio às ruínas da faixa de gaza
e no teerã um idoso se exercita na praça em frente a escombros de um prédio residencial bombardeado
aqui no ocidente a gente dissocia pra seguir em frente
a era da distopia: agora.
ignorar o caos, tentar nao ficar demente diante de tanta atrocidade
é tudo tão evidente, mas não tão recente
se declaro te amo em um dia
no outro ignoro a sua existência e finjo que sua presença não mexe comigo
sentimento mais volátil que o próprio ar
escapa entre os dedos, como água.
um peito vazio tento preencher com o tal amor líquido
morro de saudades mas não digo
passo pela sua casa, mas não bato
todo ato de amor é revolucionário
mas quem nos ensinou amar?
o centro fede a covardia
o capitalismo estragou tudo
e a gente segue rumo ao abismo
perdemos a coragem e não falamos não pra esse social sadomasoquismo
tudo do lado direito é hostil e careta
eu sinto sua falta e choro
e choro de madrugada sozinha
por tudo por nada e se contar pro doutor
é mais uma receita e um novo tarja preta
a brisa suave da chuva se aproximando já não me tira um riso…
e diante desse mais novo traço de ceticismo, pergunto
será que enfim aceitei e me anestesiei
sinto sua falta mas não te digo, não te procuro e não peço que venha me ver
parece que deixei algo importante de lado, mas não lembro, hd lotado…
mais uma vez o sol se pôs e ainda não rezei
será que me adormeceram? talvez eu já queira morrer
mas com tanta informação na palma da mão num joga pra cima quase infinito
no fim do dia tudo é tanto que já não sei…
sinto sua falta, mas mais que isso
sinto falta de viver uma vida que não seja tão plastificada como essa que
insistem em nos vender e temos aceitado goela a baixo
a verdade é que cansei de ceder.
tchau, quaresma.
segunda eu volto a viver
selvagem como tem que ser
olho em seus olhos e sinto
sua raiva combina comigo
explodiria dez emissoras de tv
só pra aparecer no noticiário e dizer
todo ato de amor é revolucionário
e antes do mundo acabar
eu quero casar com você.
sexta da paixão,
visceral como deveria ser.
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